ESAIO LITERÁRIO: A CABEÇA DO SANTO (SOCORRO ACIOLI, 2014) E O PROCESSO DE DESERTIFICAÇÃO POPULACIONAL NO NORDESTE BRASILEIRO

Maxwell Alexandre Maciel
graduando em Letras Inglês pela
Universidade Estadual do Ceará

RESUMO: Analisarei neste ensaio as causas e consequências do processo de desertificação populacional no interior do nordeste brasileiro tendo como pano de fundo a obra literária A Cabeça do Santo, da autora cearense Socorro Acioli.

Palavras-chave: Desertificação. Migração. Literatura


ABSTRACT: In this essay, I will analyze the causes and consequences of the process of population desertification in northeastern Brazil against the backdrop of the literary work A Cabeça do Santo, by the author from Ceará, Socorro Acioli.

Keywords: Desertification. Migration. Literature




LITERATURA E ÊXODO RURAL

        Desde o final do século XIX, após a enorme seca de 1877 a imagem do retirante e suas relações com a terra passaram a ser exploradas na chamada literatura das secas (ALBUQUERQUE JR., 2017). Sempre chega o momento em que o autor inevitavelmente relaciona sua obra ou é influenciado pelo local em que vive, e assim conseguimos ver nesses escritos, registros de processos migratórios ao longo dos tempos em obras de sertanejos ou de autores que tenham experiênciado a vida no sertão pois como afirma Franklin Távora, as letras obedecem “a um certo caráter geográfico” (TÁVORA, 1973, p.27).

            Porém, não é só a seca que causa a evasão de pessoas do lugar onde vivem. Em setembro de 2001 os moradores da cidade de Jaguaribara, interior do estado do Ceará tiveram que deixar suas casas, pois o local viria a ser substituído pelo maior reservatório hídrico do país (SOUZA, 2021). Sendo assim as pessoas tiveram que ir embora ironicamente pelo motivo contrário da seca. A obra pela qual abordarei esse processo de desertificação populacional trata-se do primeiro romance da jornalista e doutora em estudos de literatura Socorro Acioli. Em A Cabeça do Santo, vemos o personagem Samuel em busca dos seus últimos parentes vivos numa cidade quase esquecida no sertão cearense.


DESERTIFICAÇÃO POPULACIONAL

            A seca do nordeste se ramifica em vários outros problemas que culminam nas saída dos viventes dessas terras devastadas. Desde o empobrecimento do solo dificultando o plantio do pequeno agricultor como podemos ver em Morte e Vida Severina

— Pois fui sempre lavrador,

lavrador de terra má;

não há espécie de terra

que eu não possa cultivar.

— Isso aqui de nada adianta,

pouco existe o que lavrar;

mas diga-me, retirante,

o que mais fazia por lá?

(MELO NETO, 1956, p. 9).

            Ou até das grandes fazendas, acarretando na morte ou abandono do gado por falta de pasto e consequentemente a demissão e despejo de seus trabalhadores por não ter o que pastorear, situação esta vivida pelos personagens do romance O Quinze quando João Marreca pergunta a Vicente se ele sabe que "[...] dona Maroca das Aroeiras deu ordem pra, se não chover até o dia de São José, abrir as porteiras do curral? E o pessoal dela que ganhe o mundo... Não tem mais serviço pra ninguém." (QUEIROZ, 1930, p. 14). Esses trabalhadores veem então nas grandes cidades, refúgio para fugir da desgraça que assola a miserável terra do sertão, e esperança de conseguir trabalho para sustentar suas famílias e quem sabe mudar de vida como sonha Sinhá Vitória em Vidas Secas:

Chegariam a uma terra distante, esqueceriam a catinga onde havia montes baixos, cascalhos, rios secos, espinhos, urubus, bichos morrendo, gente morrendo. Não voltariam nunca mais, resistiriam à saudade que ataca os sertanejos na mata [...] Fixar-se-iam muito longe, adotariam costumes diferentes. (RAMOS, 1938, p. 57).

        Assim como Jaguaribara, a cidade fictícia do romance de Socorro Acioli também se encontra abandonada por motivos políticos sociais como o desinteresse por parte do poder público em investir na infraestrutura local após o fracasso de uma grande obra.

O prefeito não tinha mais dinheiro para a confecção de outra cabeça, a dívida do município era absurda [...] A festa de inauguração foi cancelada. A notícia correu de boca em boca, porque o prefeito viajou para a capital e não teve coragem de encarar a população de Candeia. Desesperança. Desfelicidade. Desgraça. (ACIOLI, 2014, p. 113).

        Antes vamos observar a caminhada do personagem Samuel até chegar à cidade abandonada de Candeia. Como todo retirante, Samuel sofre os contratempos de se deslocar em um espaço tão hostil como o interior semiárido do Ceará. Ao caminhar a pé, pois não tinha dinheiro para transporte e não se achava merecedor do milagre de uma carona, sentiu que seus pés "[...] àquela altura, já eram outra coisa: um par de bichos disformes. Dois animais dentados e imundos. Duas bestas, presas aos tornozelos, incansáveis, avante, um depois do outro, avante, conduzindo Samuel por dezesseis longos e dolorosos dias sob o sol." (ACIOLI, 2014, p. 11).

        Pelo caminho ele encontra outros andantes em procissão com destino a cidade de Canindé, que diferente de Candeia, vive a prosperidade do turismo religioso. Estes em contrapartida, ao verem a situação de Samuel se compadecem o ajudando mas vendo que Samuel não é religioso voltam atrás e o tratam com desprezo já que pra eles, o estranho seria então "um moleque malandro qualquer, um ladrão, estuprador, assassino, salafrário… Coisa boa não poderia ser. Um rapaz de bem não anda imundo pela estrada." (ACIOLI, 2014, p. 15). Ao se locomover periodicamente para as cidades religiosas, podemos traçar um paralelo entre estes romeiros e a população que se desloca diariamente para seus locais de trabalho ou estudo, assim participando do que se conhece por migração pendular que "[...] caracteriza-se por deslocamentos entre o município de residência e outros municípios, com finalidade específica.” (MOURA, 2005, p. 124). Por outro lado, os romeiros diferem do retirante que não retorna ao seu local de partida. Voltemos para ele então.

        Chegando finalmente na cidade, Samuel percebe que será difícil encontrar o que tanto anseia ao longo de toda a sua difícil viagem, visto que o lugar está inteiro em decadência. Ao olhar em volta do espaço na busca de algo vivo, o personagem nos permite imaginar as consequências da evasão rural no espaço.

Candeia era quase nada. Não mais que vinte casas mortas, uma igrejinha velha, um resto de praça. Algumas construções nem sequer tinham telhado, outras, invadidas pelo mato, incompletas, sem paredes. Nem o ar tinha esperança de ser vento. Era custoso acreditar que morasse alguém naquele cemitério de gigantes. (ACIOLI, 2014, p. 17).

        Apesar do clima impiedoso e em alguns casos terra infértil, o mato e bichos que insistem em sobreviver em tais locais tomam para si e se espalham desordenadamente pelas áreas abandonadas por seus antigos donos, evidenciando a desertificação populacional do espaço. Porém tais habitantes, e como podemos ver mais adiante na história de Acioli, alguns moradores que sobraram, denunciam que o local não está completamente deserto.

Importante então nos atentarmos para o significado de desertificação que segundo Conti (2008, p. 44 grifo nosso): "pode ser entendida, preliminarmente, como um conjunto de fenômenos que conduz determinadas áreas a se transformarem em deserto" que por sua vez, Conti diz indicar (2008, p. 44): "uma região de clima árido [...] resultando em carência de água [...]" Tais denominações dizem respeito exclusivamente ao solo. O que estou analisando aqui é um processo de desertificação por parte do povo, em específico o sertanejo.

        Samuel por fim encontra quem ele estava procurando. Sua avó Nicéia era uma das poucas moradoras que havia restado viva na cidade. Vagava em uma casa que além de aparentar estar em situação de abandono, a bagunça acusava que ali até vivia alguém mas em péssimas condições sanitárias. A construção "[...] era a maior da rua [...] Portas e janelas fechadas com tijolos. Mato crescendo por cima das telhas, saindo das frestas, raízes quebrando o piso das calçadas e varandas, vencendo a pedra" (ACIOLI, 2014, p. 17).

        Tal cenário nos faz pensar sobre a saúde da pessoa que insiste em viver de tal forma. A personagem Nicéia, é vez ou outra tida como uma pessoa desprovida de sanidade (ACIOLI, 2014, p. 23): "Tinha cara e conversa de louca." Niceia não era louca mas cabe aqui pensarmos especificamente sobre a saúde mental de quem passa por esse processo de desertificação populacional, seja tendo que abandonar o lugar onde mora ou permanecer e conviver com as ruínas do que sobrou.


A PSICOLOGIA DO RETIRANTE

        Ao realocar os poucos mais de 7 mil moradores da Velha Jaguaribara, o governo do estado do Ceará teve o cuidado de planejar uma nova cidade de forma que suprisse todas as necessidades básicas de uma população que antes vivia precarizada pelo desinteresse do setor público e a severidade do sertão. Aos mais saudosos, foram construídas réplicas de parte da antiga cidade, como a igrejinha afogada pelo açude Castanhão (SOUSA, 2021) pois "[...] é comum a manifestação de sinais e sintomas de perda intensa e dolorosa, ansiedade, inadequação, sensação de desamparo, tom depressivo, sintomas psicossomáticos similares ao estresse e auto exigência em adaptar-se ao novo ambiente." (SILVA, 2018).

        Tudo isso não foi suficiente para proteger os recém mudados, da falta que a antiga cidade deixaria neles posto que o “[...] processo de ruptura gerou profundas perdas físicas, sociais, identitárias e culturais. Não foi somente a cidade antiga que deixou de existir, mas o “eu” de antes também não existe mais.” (FREITAS et al., 2022, p. 253 )

        Numa última tentativa de serventia para o local, Candeia também seria desabitada para a construção de um grande empreendimento que geraria deslocamentos coercitivos sem cuidado dos derradeiros moradores e muito lucro ao prefeito que

esperava, havia anos, pelo fim do último morador de Candeia. Faltavam poucos, muito poucos. Helenice já concordara em vender sua casa. A pacata família de Chico Coveiro poderia ser transferida para outro lugar, certamente sem resistência. Os poucos velhos que sobravam estavam para morrer. Era questão de pouco tempo [...] A ideia era vender o terreno de Candeia para uma empresa que construiria uma fábrica ali, mas Osório só poderia fazer isso quando todas as casas estivessem — ilegalmente — em seu nome. (ACIOLI, 2014, p. 133).

        Sendo assim, face ao sentimento de “insegurança e desamparo social direcionados a empresas privadas e entidades governamentais” dos deslocados, como destaca Freitas et al. sobre os impactos do deslocamento forçoso da população jaguaribense (2022, p. 256), torna-se imprescindível que essas mesmas entidades tomem as merecidas precauções para que quando habitantes de um determinado local, ao se mudarem obrigatoriamente tenham além de tudo, uma atenção a sua saúde mental bem como aos migrantes que chegam aos montes nas grandes cidades em busca de emprego, proteção e qualidade de vida mas muitas vezes se veem em situações tão difícil quanto antes.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 


ACIOLI, Socorro. A Cabeça do Santo. São Paulo. Editora Companhia das Letras. 2014.

ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. As imagens retirantes, Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 33, n. 61. 2017.

CONTI, José Bueno. O Conceito de Desertificação. CLIMEP – Climatologia e Estudos da Paisagem, Rio Claro, SP, Brasil. Vol.3 – n.2 – 2008.

FREITAS, M. L. P. de.; BESSA, R. B. de H.; FERREIRA, K. P. M.; FARIAS, L. de A. B. As   ruínas da Velha Jaguaribara: Impactos e prejuízos do deslocamento compulsório. Disponível em http://pepsic.bvsalud.org. Estudos de Psicologia. 2022.

MELO NETO, J. C. de. Morte e Vida Severina. Amazônia. Editora UNAMA. 1955.

MOURA, Rosa; BRANCO, M. L. G. C.; FIRKOWSKI, O. L. C de F. Movimento Pendular e  Perspectivas de Pesquisas em Aglomerados Urbanos. Disponível em São Paulo em Perspectiva, v. 19, n. 4, 2005.

QUEIROZ Rachel de. O Quinze. Rio de Janeiro. Editora José Olympio Ltda. 1930.

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. São Paulo. Editora José Olympio Ltda. 1938.

SOUSA, Alice. 20 anos da 1ª cidade planejada: memória e a nova história na reinvenção de Jaguaribara. OPOVO+. 2021. Disponivel em: 24 de Sep de 2021. https://mais.opovo.com.br/reportagens-especiais/cidades-inundadas/2021/09/24/20-anos-da-1-cidade-planejada-memoria-e-a-nova-historia-na-reinvencao-de-jaguaribara.html. Acesso em: 1 maio 2023

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