LUTO DO MUNDO QUE NÃO VOLTA MAIS
Eu tinha um mundo que compartilhava com minha mãe. Nele, ela me ajudava com as coisas mais simples da vida, me protegia de tudo o que ela conseguia e me amava. Quando ela se foi, todo esse mundo também sumiu, e eu tenho que sobreviver num outro mundo onde eu; preciso resolver coisas por vezes simples que obviamente eu já devia ser capaz de resolver sem a ajuda dela; preciso ter coragem e força pra me proteger nesse mundo que me oferece riscos que nem ela poderia me proteger mas com ela eu podia ao menos contar com um colo pra chorar até sarar e por fim, estou tendo que aprender a me amar pois ninguém neste mundo será capaz de fazer isso como ela — nem eu mesmo —. Então, obviamente senti muito por ter perdido esse mundo, mas hoje, passados mais de três anos, eu posso dizer que superei apesar de ainda esbarrar em situações que me fazem sentir falta daquele mundo.
Fiz um cursinho pré-vestibular — que já é estressante por si só — no meio da pandemia; tomei coragem para cuidar da minha saúde mental, passei na faculdade tudo isso enquanto amadureci minha autonomia em cuidar das coisas de casa — incluindo a da minha irmã com dificuldade de locomoção —. Tudo certo, não? Foi então que percebi que eu não tinha superado, nem mesmo vivido o luto pela pessoa que foi a minha mãe.
Maria de Jesus Alexandre Pereira era o nome dela, mas geralmente a chamavam de Mara e os familiares dela — irmão, primos e sobrinhos — a tinham pelo apelido de Bidude — que escolhi escrever assim pois antes desse texto nunca tinha visto essa palavra de uma forma que não fosse a oral —. Uma mulher que adorava está com as unhas feitas e preferia hidratante à perfume — não só por isso tinha a pele mais macia do mundo que eu sonhava em ter herdado —, fazia bolos deliciosos dos quais eu a ajudava a vender, costumava ir ao forró onde provavelmente era um dos locais onde ela mais se divertia mas por causa da bebida a gente acabava brigando — situação pela qual vou sentir muito pra sempre — e nos últimos tempos ficava horas vendo videos de cachorrinhos. Tinha a Catarina, uma poodle branca, mas sempre sonhou em ter uma pretinha e o gato Jorel que eu dei o nome e apesar de já ser um animal adulto e não termos sorte em criar gatos, se apegou rápido à gente, tanto que hoje em dia até meu pai — asmático — me ajuda a cuidar dele.
Mara era tudo isso e isso era só o que eu conhecia. Tinha muito mais além nela. Tinha um mundo inteiro. E esse mundo eu ainda não sei viver sem, nem ao menos parei pra me permitir sentir as dores, saudades e raivas por ter perdido ele pois sei que uma vez que eu entrar nesse lugar talvez eu não consiga mais sair. Não estou dizendo que sou frágil demais para tal trabalho, já consegui superar e seguir em frente depois de perder o anel de aparecida que ela me deu por volta dos cinco anos, ou os documentos num assalto em 2013. Superei até mesmo perder um dos melhores amigos que tive num momento da vida que morava num local onde eu amava e tudo isso ficou pra trás quando nos mudamos de bairro em 2008. Só que tudo isso era parte do meu mundo que naturalmente — como o de todas as pessoas — se desfaz para se refazer e às vezes a nova versão pode ser até melhor mas agora eu não perdi só uma parte e sim um mundo inteiro que era parte importante de uma enorme órbita de amor e companheirismo. Um elemento importante assim não deixaria de existir sem causar danos irreversíveis. Esse é o vácuo que talvez eu não consiga me livrar uma vez que estiver nele.
Mãe, eu te amo tanto que nos momentos de culpa cristã cheguei a pensar que seria errado pois sentia que te amava mais que Deus. Eu não estava errado pois você é meu deus, meu mundo, meu passado, presente e futuro, o verbo. Eu prometo — apesar de achar impossivel sem você — tentar até meus últimos dias ser feliz. Por nós.

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